sábado, 2 de janeiro de 2010

De quem é a responsabilidade pela preservação ambiental?

A conferência climática promovida pela Organização das Nações Unidas na cidade de Copenhague, para combater o aquecimento global, se tornou um dos assuntos favoritos da imprensa internacional. Mas o “esforço” de estadistas para solucionar problemas ambientais não é novidade. Inúmeras conferências já foram realizadas e acordos firmados, a exemplo da Conferência de Estocolmo, realizada em 1972, e a própria ECO-92, evento realizado no Rio de Janeiro, em 1992, que reuniu diversos líderes internacionais também com a proposta de debater estratégias e saídas para a diminuição dos impactos ambientais da atuação do homem nos ecossistemas.

Não quero aqui abordar se os países possuem interesse em seguir o que foi acordado, restringir ainda mais a emissão de gases, empreender sanções para empresas que descumprirem as regras, enfim, se há interesse por parte dos estados em mudar comportamentos em prol de meio ambiente saudável. Também, não vou me prolongar em dizer que a preservação do meio ambiente é necessária não apenas para nós habitantes desse planeta azul, mas àqueles que futuramente terão a Terra como lar. Nossos filhos, netos e, com sorte, bisnetos.

O fato é que as discussões dos impactos da ação humana sobre o meio ambiente têm girado em torno, principalmente, na responsabilização dos estados na solução dos problemas ambientais. Com isso, a preservação do meio ambiente acaba sendo vista pela sociedade como uma questão macro que deve ser discutida apenas por líderes mundiais e altos diplomatas. Tais problemas, mesmo afetando diretamente a todos os moradores desse planeta, ficam distantes das pessoas. É como se ninguém, exceto esses chefes de estado, pudesse fazer nada para modificar essa realidade.

No entanto, cada ser humano tem a responsabilidade de cuidar da Terra. Para isso, não precisa militar no Greenpeace, nem aparecer nu em eventos internacionais como forma de protesto contra a falta de empenho dos países em diminuir os índices de poluição. Basta, no dia a dia, incorporar hábitos simples como separar corretamente o lixo, ir para o trabalho de bicicleta em vez de usar algum veículo auto-motor, não jogar lixo nas ruas, dar um destino correto a pilhas e sobras de óleo de cozinha, não usar sacolas plásticas... Empresas, mesmo interessadas em manter uma boa imagem, já estão engajadas na reciclagem de alguns materiais, oferecendo locais para o depósito de pilhas e baterias usadas, materiais recicláveis, como plástico, papelão e até óleo de cozinha.

Antes de olhar para macro, é preciso visualizar o micro. E isso também é responsabilidade do Estado. Quando chove, canaletas entopem, ruas alagam, as pessoas sempre reclamam. Culpa delas? Claro, mas, também, culpa do poder público, que costuma se defender afirmando que não há educação ambiental por parte da população. Coloca a culpa nos cidadãos. De fato eles são os agentes. Perpetuam uma cultura de séculos. Mas a responsabilidade da quebra desse paradigma é do poder público. Ensinar, fiscalizar e até multar se for preciso. Educação ambiental deve começar na escola e se prolongar fora dela. Dentro de casa, com os pais, na rua, com os visinhos, até nas conversas entre amigos.

Sonho com o dia em que repreender um desconhecido por jogar na rua saquinhos de pipoca, latas de refrigerante, entre outras coisas, não será motivo para se levar um fora. Sonho com o dia que em cada poste da cidade terá cestos de lixo, de coleta seletiva, sem estar depredado, que poderei andar pelas ruas sem precisar me desviar da sujeira. Certa vez uma brasiliense me disse que Recife fedia. Sonho com o dia em que isso não será mais verdade.

Gabriela, nem cravo, nem canela

Gabriela era normal. Nem alta nem baixa, nem branca nem negra, cabelos nem lisos nem cacheados. Tudo na sua vida era mediano. Filha do meio, nunca recebera dos pais a atenção desejada. A caçula, por ser mais nova, era sempre paparicada, a mais velha, por ser problemática, sempre foi o centro das atenções. Os raros momentos em que Gabriela conseguia falar de si eram nas manhãs antes de ir para a escola, quando a mãe perguntava sobre o seu rendimento nas aulas e requeria os boletins. Com o pai quase nunca falava. O dialogo com ele se resumia aos “boas noites”, quando chegava da aula de teatro e achava o pai sentando no sofá assistindo ao jornal.

Tinha amigas na escola, mas nunca fora a líder do grupo. Também não se enquadrava entre os melhores alunos da sala de aula, embora nunca tenha tirado uma nota baixa. Por ser normal, nunca atraia a atenção dos rapazes, principalmente dos mais bonitos. Nunca conseguiu dar bitocas nos bonitões da escola, apesar de se apaixonada por Pedro (louro, alto, bonito e sensual!). Até em uma das suas maiores paixões, o teatro, não conseguia se destacar. O máximo que conquistara com as tardes de ensaios intensos foi o papel de melhor amiga da protagonista.

Gabriela entrou para a faculdade. Curso de Letras, por uma vaga de remanejamento. Nas aulas, não conseguia participar das discussões. Apesar de ler muito, sempre achava que não tinha conhecimento suficiente para defender coerentemente suas idéias. Com os seus colegas de sala tinha apenas conversas de corredor. Nada de amigos de farra. Já formada, ela iniciou suas atividades empregatícias como recepcionista de uma escola. Aceitou o emprego a contragosto. Afinal precisava pagar as contas. Além do mais, era em uma escola, alguém poderia enxergar o que ninguém havia visto e acreditaria no seu potencial. “Um dia terei a minha chance”, pensava.

E um dia, Gabriela, já com alguns anos no serviço, chegou mais cedo à escola. Era o primeiro dia de aula do ano eletivo. Como de costume, iniciou o seu ritual de preparação: organizou sua mesa, ligou o computador e esperou a hora dos portões abrirem. Ficou pensando nas novas caras que veria e no que ano lhe reservava. “Se um dos professores desistir ou pedir demissão? Essa pode ser a minha chance”, pensava. No meio do devaneio, uma mão lhe toca o ombro. Era a sua companheira de trabalho, que tanto aprendera a gostar. Trabalhava na diretoria como estagiária. Também da área de Letras, sempre trocavam figurinhas sobre gramáticas, textos e linguagem.

Com um sorriso de orelha a orelha, a estagiária lhe revela que se formara a pouco e por isso foi chamada lecionar na 7ª série como professora de português. “Porque uma ex-estagiária, recém saída da universidade, e não eu?!”, repetia a si mesma. Gabriela faz um sorriso amarelo, parabeniza educadamente e pede licença. Vai ao banheiro. Chora. Como queria ser aquela ex-estagiária. Como queria conquistar o que ela conquistou. Gabriela se vê com inveja. Não gostava de sentir aquilo. Queria mais, para si, claro, mas não gostava de cobiçar o que não era seu. Não queria mais sentir inveja.

“Senhor diretor, licença. Aqui está minha carta de demissão. Obrigada pela oportunidade, mas eu busco um novo começo”.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Carta a Joelielson

Recife, 8 de dezembro de 2009

Prezado Joelielson,

Não acho que agi errado, por isso não vou gastar a minha cota de pedidos de desculpas, pois é preciso estipular quando eles realmente devem ser utilizados para não se tornarem banais. Também não vou lhe lançar novamente os meus argumentos, para que não lhe canse os ouvidos, afinal de contas a você não foi dado o dom de compreender o outro. Sempre leva em consideração apenas os seus sentimentos, suas visões sobre os fatos. Não passarei mais de uma hora com você ao telefone, ouvindo palavras de indignação que tanto magoam e me fazem sentir como se nada do que eu fizesse ou acreditasse valesse à pena.

Nossas opiniões são divergentes. Somos diferentes. Acreditamos em coisas distintas. Temos valores diversos e conferimos importância a situações também diversamente. Por isso, não vou mais dar “murro em ponta de faca”, já que nada do que falarmos um para o outro vai nos convencer se estamos errados ou não, ou, ainda, que não há erro, apenas opiniões divergentes. Então lhe dou duas alternativas: a separação ou... que deixemos toda essa leseira de lado e nos amemos loucamente, que amar é complicado mesmo. Todo mundo sabe que vai estressar, ganhar uma gastrite e viver sob o risco de conquista um adereço indesejado - mas eterno - em cada lado da testa. Fazer o que, não é? Amar é essencial e....

Eu te amo,

Cremilda
***
Se você fosse Joelienson o que responderia à Cremilda?

domingo, 29 de novembro de 2009

Trilha sonora da vida

Alguns momentos parecem ter trilha sonora própria. Quando se vive algo intenso e do nada se ouve AQUELA música, pronto! Basta as primeiras notas invadirem as cavidades auriculares para que as lembranças e sentimentos vividos naquele instante saltem da mente e nos inunde. A música nem sempre precisa ter a ver com a ocasião para causar esse efeito. Mas, na verdade, o que acontece em geral é o contrário. Quem ouve a música e vive o momento sempre acha que palavras e fatos parecem se combinar magicamente.

Costumo dizer que cada vida tem uma trilha sonora especifica. Música dá emoção aos momentos, traz recordações por vezes boas, por vezes ruins. Nos faz lembrar que não somos apenas meros animais racionais, mas portadores de algo misterioso, que muitos chamam de alma. A música, simplesmente, toca a alma de quem ouve. Já vi os olhos da minha mãe marejarem ao ouvir Mania de Você, de Rita Lee, que lembra certa noite da década de 70 e certo beijo de amor. Ou ainda, irmãos da igreja chorando como bebês, não pelas “palavras divinas” do pastor, mas por ouvir os primeiros acordes do hino de louvor emocionante.

O que seria da vida sem a música? Ela torna os momentos mágicos inesquecíveis. Definitivamente, música é magia. Escrevo essas palavras ouvindo The Greatest, de Cat Power, do filme My Blueberry Nights (para vê-la clique aqui). Ela foi minha música tema de uma noite solitária em um quarto de hotel de Brasília. Melodia e melancolia que marcaram um momento de solidão bastante produtivo. A voz suave e doce da cantora, as notas, arranjos... parecem me conduzir àquela noite. Quase me sinto como se estivesse lá, ainda enrolada na toalha, depois de um banho quente, pensando na vida.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Nem parece Brasil

Tive a primeira impressão da capital do Brasil ainda no avião. Era quase 20h – uma hora a mais da que seria em Recife, por causa do horário de verão -, quando lá no chão começaram a surgir as primeiras luzes típicas a ambientes urbanos. Perfeitamente enfileiradas, algumas estavam estáticas, provavelmente provenientes de postes, enquanto outras se movimentavam de maneira ordenada, tranqüila, em cima de largas e longas avenidas. Naquele momento, Brasília se mostrou uma cidade distinta de todas as que eu já havia conhecido - uso a palavra distinta para não dizer estranha.

Lá tudo é esquizofrenicamente organizado. Cada área de Brasília tem um setor especifico: dos hotéis (Setor Hoteleiro Norte/Sul), das lojas (Setor Comercial), dos bancos (Setor Bancário), das construções que são símbolo do poder brasileiro (Setor Monumental), tem até o setor das gráficas, onde ficam os jornais diários (Correio Brasiliense, Jornal de Brasília, Imprensa Nacional). Não há nome de ruas, avenidas, números de imóveis. Os endereços são quase equações de segundo grau. Os carteiros precisam se virar para decifrar números e letras de quadras. L2, W3 Sul, Quadra 6 SHS, etc. Definitivamente, Brasília, de uma organização impecável, foi projetada, metro a metro, para ser a sede do poder da república.
A organização não é só física, mas estrutural. Enquanto em Recife há um amontoado de casas em cima de morros, bandidos esperando na esquina para dar o bote, um trânsito infernal, engarrafamentos intermináveis e motoristas mal educados. Características típicas de uma cidade antiga, que se expandiu (e se expande) de maneira natural e desordenada. Em Brasília as pessoas são sempre solicitas e gentis. Todos ligam a seta do carro e param na faixa a mínima manifestação de interesse de um pedestre em atravessar a rua. Como pode? Faltam buracos nas vias. Tudo é bem cuidado, limpo. Não há mau cheiro.

Até o metrô parece ser novo apesar de ter sido inaugurado a mais de sete anos. Vi, em uma das estações de metro que dá acesso a uma das maiores cidades-satélites do Distrito Federal, Ceilândia Centro, uma pintura exposta do lado de fora. Fiquei impressionada. Como pode estar limpa, conservada, sem nenhuma marca de pichação ou rasura, se ela está do lado de fora da estação?
Tanta organização me causou um imenso tédio. Não há pessoas andando à noite nas quadras do chamado Plano Piloto (Brasília propriamente dita). Nem bares em cada esquina. Nem fiteiros onde se podem comprar cigarros. A boemia brasiliense também é restrita a um setor, que não tive a oportunidade de conhecer. O máximo que vi foi um espetinho camarada próximo a um posto de gasolina. Nada de boys de posto e piriguetes. Só senhores e amigos relaxando depois de um longo dia de trabalho. Cidade estranha, quase surreal.
Mas, é claro que Brasília não é perfeita. Características sociais típicas dessas cidades desse Brasilzão velho sem porteira já começaram a surgir pelas ruas bem projetadas da cidade. Mendigos, drogados, desigualdades sociais. O fenômeno da expansão urbana e todos os problemas que ele traz, já começou a dar seus primeiros sinais na idealizada capital projetada por Niemeyer.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Conhecidas estranhas

Estava quase bêbada, voltando para casa em um “busão” lotado, em pleno sábado à noite. Mesmo lá, no ruge-ruge, as lembranças recentes dos melhores momentos daquela noite foram suficientes para me absorver. Ainda era cedo para voltar para casa, o que deixou, pelo menos em mim, a vontade de repetir a dose. Logo eu que não consigo prender amizades duradouras – apesar de, muitas vezes, supervalorizá-las –, me senti estimulada a conservar duas que haviam desaparecido, ainda na minha adolescência perdida.

Encontrar duas velhas conhecidas (depois de anos, quase estranhas) foi mais do que me permitir a um momento nostálgico, de culto ao passado. Para minha surpresa, entre copos de cerveja (e Pitu Cola), hippies galanteadores, bandas de garagem de terceira categoria e beldades do interior, a mesma cumplicidade e sintonia continuavam presentes entre nós. Ao contrário do que pensei (confesso!) as conversas não se resumiram aos personagens dos anos de colégio ou aos rumos que a vida havia tomado desde a última conversa (há quanto tempo foi?). Esses assuntos, como de praxe, se fizeram presentes na mesa de bar, mas não só eles. Voltamos a tricotar, trocar figurinhas, falar de sacanagem.

Tudo tão igual e ao mesmo tempo tão diferente. Os sorrisos, trejeitos, a velha cumplicidade eram as mesmas, mas a personalidade das três (e ainda há uma quarta), nossa, como mudou. Quem era devassa, metida a maconheira, se tornou compenetrada, estudiosa. A amiga-mãe, sempre séria, pronta para dar conselho, estava lá, esbanjando sensualidade, bebendo para não dar gosto às lágrimas de quem havia perdido um amor. Já eu, a velha menina sóbria, de roupas atacadas e um vocabulário de fazer gosto a qualquer religiosa - segundo elas próprias disseram -, me tornei uma jovem de boca suja, que adora duplos sentidos e que, naquela noite, só não bebeu mais porque voltou cedo, de busão lotado, para casa. As velhas afinidades que nos unia no colegial talvez não existam mais. Mas acho que, naquela noite, descobrimos inúmeras outras que nos tornam próximas, praticamente iguais.

É interessante demais se perceber crescendo. E mais do que isso. É interessante ver que personagens do passado também cresceram junto, amadureceram o jeito de perceber o mundo, mudaram de perspectivas, alcançaram novos caminhos. É o velho ciclo da vida. Hoje todas nós estamos no mesmo barco: tentando alcançar o nosso espaço do mundo dos adultos. Quando será o próximo encontro? Não sei ao certo (se depender de mim será o mais breve possível). Apenas sei que o de sábado à noite, apesar de curto, terá um lugar reservado na memória.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Cresci, ó!

Não há nada mais complicado do que crescer. Não falo de esticar ossos e músculos, mas de crescer como ser humano, deixar de ser criança, adquirir responsabilidades. Nascer, crescer, reproduzir e morrer. Ô ciclo de vida cruel. Quanto mais os dias se passam, mais se chega perto do proximo ciclo - no meu caso reproduzir e morrer, pois apesar dos meus 1,54 metros, posso dizer que já cresci. Sei que cresci porque todas as manhã quando saio de casa levo um fado pesado nas costas, mais volumoso do que a mochila que costumava carregar na época de escola: a obrigação. Obrigação de levantar cedo todos os dias para garantir, não mais o conhecimento escolar primitivo, mas o pão de cada dia, a bufunfa para pagar as contas o "faz-me-rir" que custeia as cachaças de fim de semana. Filas de banco, broncas de chefe, desabafos no banheiro do trabalho. Tudo isso virou rotina. É preciso conviver com uma hierarquia mais intolerante. Xingar o professor na frente de todos, no meio da sala de aula, pode render, no máximo, uma suspensão. Em muitos casos, apenas afrontar (ou discordar) do chefe, se não é um passaporte para o olho da rua, são "milhas aéreas" garantidas para uma viagem, sem volta, do grupo dos empregados para o dos desempregados.

Quanta saudade tenho da época da escola. As vezes sinto vontade de bater nos ombros de um desses jovens fardados nas paradas de ônibus e perguntar se eles querem trocar de lugar com uma jornalista recém-formada, que, apesar de ter apenas 9 meses de formação, já trabalha na área. Nesses momentos, não me passa pela cabeça o ordenado no final do mês, nem as conquistas que já obtive em tão pouco tempo de profissão. Quando vejo aquelas garotas com sardas nos rostos e cardernos nas mãos penso que queria só estudar. Paquerar os "filézinhos" da escola. Sair mais tarde do colégio só pelo prazer de jogar volei com os companheiros de sala (aqueles que, hoje, quando passam por mim dão a egípcia). Queria ter tempo para me dedicar a livros, fazer dança de salão no final da tarde, chegar em casa a tempo de assistir a novela das 18h. Queria acordar no meio da noite no sofá, com minha mãe me sacundindo os ombros, com um copo de leite quente nas mãos, me oferecendo carinho e aconchego através daquele pequeno gesto. Como tenho saudade das férias de verão, nas praias e farras com primos e tios. Como eu era irresponsável! Tenho saudade.

Planos, projetos, sonhos. Quanta autonomia. Dá medo poder ser qualquer coisa que eu quiser. Não tenho medo de sofrer. Tenho medo de nadar, nadar e morrer na praia. Medo de olhar para mim mesma, já bem próxima do último ciclo dessa vida cruel, e constatar que nada de importante construí. Ver que não fui profissional, mãe, mulher, companheira, amiga... Fui só uma árvore sem graça na beira da estrada que nasceu, cresceu, reproduziu, envelheceu e morreu, sem ninguém perceber a beleza do seu verde, o aconchego da sua sombra, o cheiro agradável das suas folhas.